Política

Igreja Presbiteriana avalia vetar Legendários por risco de ‘desvio do Evangelho’

A cúpula da Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB) decidirá no final de julho se veta a participação de seus membros no Legendários, um controverso programa de imersão para homens que busca resgatar uma suposta “masculinidade bíblica” por meio de desafios de sobrevivência e pregações. A deliberação ocorrerá durante a reunião quadrienal do Supremo Concílio, instância máxima da denominação, em Manaus.

Um documento elaborado pelo sínodo de Tocantins, ao qual a reportagem teve acesso, recomenda o veto e aponta a incompatibilidade do movimento com a doutrina presbiteriana. A análise critica o uso de metodologias de coaching e técnicas de alto impacto emocional, que acabariam por esvaziar a centralidade das Escrituras e da fé cristã. O movimento atrai figuras conhecidas do universo empresarial e da direita, como os influenciadores Pablo Marçal e Thiago Nigro (o Primo Rico), que já participaram de edições anteriores.

Críticos apontam que o Legendários promove uma autoafirmação viril baseada em discursos machistas e na chamada teologia do coaching. O objetivo declarado do programa, idealizado na Guatemala e trazido ao Brasil em 2018, é restaurar o “instinto caçador” e o papel do homem como provedor, em resposta a uma suposta omissão masculina na sociedade.

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O parecer presbiteriano questiona a apropriação de ferramentas do mundo corporativo, como gritos de guerra, uniformes e a numeração de membros, citando como exemplo o tratamento inadequado a Jesus Cristo, chamado de “Legendário 001”. Tal prática, segundo o documento, configura um “nítido desvio” do Evangelho, “transformando a piedade em um produto de consumo grupal e performático”.

A análise também alerta que práticas de privação de sono, alimento e desgaste físico extremo podem induzir estados alterados de consciência, facilmente confundidos com experiências espirituais genuínas. Caso aprovado, o veto servirá como diretriz para toda a IPB, que passará a exercer “vigilância pastoral” sobre os membros que insistirem em participar do movimento.

Procurado, Joshua Catalan, vice-presidente do Legendários, afirmou em nota que a organização respeita as diferentes denominações e que segue focada em “ações que contribuem para comunidades mais fortes, solidárias e com o bem comum”.