Cultura

Relatório revela concentração de R$ 3 bi em cachês para 40 artistas

Um levantamento inédito sobre o uso de dinheiro público na contratação de shows aponta uma forte concentração de recursos: apenas 40 artistas e bandas receberam R$ 3,08 bilhões de prefeituras e governos estaduais desde o início de 2024. Os dados fazem parte do relatório “Farras”, que analisou mais de 20 mil contratos e expõe a dinâmica de um mercado restrito, onde um pequeno grupo de produtores e músicos domina as contratações.

O valor destinado a esse seleto grupo se aproxima do orçamento total do Ministério da Cultura para 2026, de R$ 3,26 bilhões, que abrange todas as manifestações artísticas do país, e não apenas a música. A pesquisa revela que, dos R$ 3,08 bilhões, R$ 1,78 bilhão foram direcionados a vinte artistas agenciados por apenas cinco produtoras, duas delas pertencentes aos cantores Wesley Safadão e Xand Avião.

Diferente do senso comum, que associa os altos cachês principalmente ao sertanejo, o topo da lista é dominado por ritmos nordestinos como forró, piseiro e arrocha, que ocupam sete das dez primeiras posições. A análise também destaca a contradição de artistas como Zé Neto & Cristiano e Eduardo Costa, que criticaram publicamente a Lei Rouanet — mecanismo de incentivo fiscal para projetos culturais — enquanto recebiam valores milionários diretamente dos cofres públicos, por meio de contratos sem licitação.

Essa prática, justificada pela “notoriedade” dos artistas, levanta questões sobre a distribuição de verbas e a falta de oportunidades para milhares de outros profissionais da música no Brasil. Enquanto a Lei Rouanet fomenta a diversidade cultural com recursos de incentivo fiscal, os contratos diretos de estados e municípios concentram o investimento público em um número restrito de nomes já consagrados no mercado.