Machismo, hierarquia e morte: sargento não aceitava patente superior da esposa capitã
A morte da capitã da Polícia Militar Michele Leão Azevedo, em Belo Horizonte, revela um pano de fundo de machismo e violência de gênero. O principal suspeito do crime, investigado por feminicídio, é seu marido, o sargento Eduardo Abner Pereira de Oliveira. Familiares da vítima relatam que o militar não aceitava a posição hierárquica superior da esposa na corporação.
Segundo Marlon de Carvalho Leão, tio da capitã, o sargento se sentia “rebaixado” pela patente de Michele e tentava compensar essa insegurança destacando sua formação em Direito. “Ele se via como advogado, como sendo algo diferenciado, porque se sentia rebaixado por ela ser capitã e ele ser um sargento”, afirmou em entrevista.
O primo da vítima, Jonathan Leão, reforçou o quadro de um relacionamento abusivo, descrevendo que a capitã mudava de comportamento na presença do marido, tornando-se “mais presa, mais contida”. Este padrão de controle é um forte indicativo de violência psicológica que frequentemente precede o feminicídio.
A versão inicial do sargento, de que Michele teria sofrido uma queda da escada, foi rapidamente desmentida pelos médicos do Hospital Odilon Behrens, que identificaram sinais de violência e acionaram a polícia. A autópsia revelou que a capitã já estava morta entre quatro e seis horas antes de ser levada ao hospital, o que contradiz a narrativa do suspeito, que foi preso em flagrante.
Em sua defesa, o sargento alegou que as agressões ocorreram durante uma relação sexual consensual, prática que seria comum ao casal. No entanto, um vídeo obtido pela investigação mostra o militar carregando o corpo inerte da esposa pelo prédio até o carro, reforçando as suspeitas de que ele tentou ocultar o crime. A defesa pede que não haja “julgamento precipitado”.
O histórico do sargento agrava o caso: ele já foi investigado por violência doméstica contra pelo menos outras duas mulheres, embora os inquéritos tenham sido arquivados. O caso expõe, mais uma vez, a urgência de políticas públicas eficazes para proteger mulheres e combater a cultura de violência machista que ceifa vidas.






