Política

Flávio Bolsonaro Desmascara a Própria Tentativa de Moderação em Coletiva Caótica

Em uma coletiva de imprensa que se esperava ser um divisor de águas para a imagem de Flávio Bolsonaro, o senador acabou por aprofundar a crise envolvendo o financiamento do filme “Dark Horse”, cinebiografia de seu pai, Jair Bolsonaro. Em vez de acalmar os ânimos e distanciá-lo de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, a coletiva serviu para reforçar a dependência financeira do projeto e expor uma estratégia de defesa que remete diretamente ao estilo de seu pai em momentos de pressão.

Pressionado pelas revelações sobre o aporte financeiro de Vorcaro no filme, Flávio Bolsonaro adotou um tom combativo, com ataques à Polícia Federal e insinuações sem provas contra investigadores. A tentativa de minimizar a relação com o ex-banqueiro, apresentado inicialmente como alguém “acima de qualquer suspeita”, desmoronou quando o próprio senador admitiu que Vorcaro deixou de cumprir pagamentos ainda em maio de 2025 e que ele próprio continuou cobrando o banqueiro meses depois. Essa admissão joga por terra a narrativa de um investidor distante.

O ponto mais delicado da coletiva foi a confirmação de que Flávio Bolsonaro se encontrou pessoalmente com Daniel Vorcaro após a prisão do ex-banqueiro, que usava tornozeleira eletrônica e tinha proibição de deixar São Paulo. A justificativa de “botar um ponto final nessa história” levanta mais dúvidas do que respostas, especialmente pela ausência de advogados ou notificações formais em uma situação de tamanha complexidade legal e financeira.

As informações divulgadas anteriormente por veículos como o Intercept Brasil e o g1 revelam a magnitude da participação de Vorcaro no projeto. Negociações apontam para um aporte de US$ 24 milhões, com cerca de US$ 10,6 milhões já pagos. Relatórios indicam que mais de 90% do orçamento executado do filme foi financiado por recursos ligados ao dono do Banco Master, desfazendo qualquer tentativa de apresentar Vorcaro como um mero “intermediador”. O filme, na prática, dependia quase integralmente do banqueiro.

Em um movimento para desviar o foco, Flávio Bolsonaro tentou vincular o caso a uma suposta proximidade entre o presidente Lula e Daniel Vorcaro, citando uma reportagem que sugeria que o presidente teria aconselhado o banqueiro a não vender seu banco. No entanto, a comparação falha ao equiparar um diálogo político institucional a um recebimento direto de fundos para um projeto de cunho familiar e político, como é o filme sobre Jair Bolsonaro.

A coletiva evidenciou uma guinada completa ao estilo político do bolsonarismo original. A declaração de que “não está dando para contar 100% com a Polícia Federal, porque uma parte dela bastante aparelhada” e a insinuação sobre a troca de um delegado responsável por investigações relacionadas ao INSS, sugerindo pressão ou ameaça, reproduzem o padrão de levantar suspeitas contra instituições sem qualquer prova concreta.

Em suma, a coletiva que visava conter danos acabou por reforçar as fragilidades da posição de Flávio Bolsonaro. Em vez de consolidar a imagem de um nome pragmático e menos radical, o senador reagiu a crise como seu pai, atacando, insinuando e tentando transformar investigações em perseguição política. A tentativa de salvar a fantasia de moderado o fez reaparecer como o herdeiro político mais fiel do bolsonarismo original.