Política

Disputa entre Flávio e Michelle expõe luta por poder no clã Bolsonaro

A recente troca de acusações entre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro revela muito mais do que um desentendimento familiar. O episódio expõe uma acirrada disputa política pelo espólio eleitoral de Jair Bolsonaro, inelegível, e pela liderança da extrema-direita com vistas à eleição presidencial de 2026.

Após Michelle tornar pública sua insatisfação com o que considerou uma traição de Flávio na articulação pela candidatura, a resposta do senador soou como uma tentativa de enquadramento público, buscando impor disciplina em vez de oferecer um debate político transparente. Flávio, como senador, atua para se consolidar como o herdeiro institucional do clã, enquanto Michelle, à frente do PL Mulher, se firmou como um importante ativo eleitoral junto à base religiosa e conservadora.

O que acirra a disputa são os números. Pesquisa Datafolha em um cenário sem Jair Bolsonaro mostra Michelle com 22% das intenções de voto, contra apenas 8% de Flávio. Essa diferença de popularidade desloca o eixo da sucessão para além da linha dinástica que o parlamentar tenta controlar e ajuda a explicar a dureza de sua reação.

A briga deixa de ser uma questão de vaidade e passa a envolver o comando da narrativa, a influência sobre a base religiosa e, crucialmente, o controle da máquina partidária. Dados do TSE mostram que o PL é um dos maiores beneficiários do Fundo Partidário em 2024, com mais de R$ 130 milhões de recursos públicos. Controlar o partido significa decidir sobre diretórios, candidaturas e a arquitetura da campanha de 2026.

O interesse público no caso vai além da curiosidade sobre as fissuras na família. A crise interna demonstra que o bolsonarismo, que se vende como um movimento moral, opera na prática como um condomínio privado de poder. Quando a partilha de votos e do dinheiro público entra em jogo, a retórica da fé cede espaço à dura linguagem pelo controle do cofre e do palanque.