Política

Aposta de campanha, mulher de Flávio Bolsonaro é figura central em esquema de rachadinha

Acionada pela campanha de Flávio Bolsonaro (PL) para mitigar a crise com a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, a esposa do senador, Fernanda Bolsonaro, teve seu nome diretamente ligado ao escândalo da “rachadinha”. Ela foi denunciada pelo Ministério Público do Rio de Janeiro (MP-RJ) ao lado do marido, em um caso que expõe as complexas teias do esquema. Embora a acusação tenha sido arquivada devido à anulação de provas pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) e pelo Supremo Tribunal Federal (STF), os detalhes da investigação original lançam luz sobre as operações financeiras do clã Bolsonaro.

A denúncia do MP-RJ detalhou que Fernanda Bolsonaro recebeu um depósito de R$ 25 mil de Fabrício Queiroz, apontado como operador financeiro do esquema, dias antes de quitar a parcela de entrada de um apartamento adquirido pelo casal em 2011. Além disso, a investigação revelou outros depósitos fracionados e seu envolvimento na abertura da loja de chocolates administrada pelo senador.

A assessoria da campanha de Flávio Bolsonaro, em nota, defendeu a inocência do casal, afirmando que as denúncias “não procedem” e que “decisões do STJ e do STF invalidaram todas as provas da investigação”, resultando no arquivamento do caso. A nota ainda criticou a reportagem da Folha, classificando-a como “distorcida” e com o objetivo de “atingir a reputação de Fernanda”. A defesa ressaltou que ambos possuem “reputação ilibada” e são “ficha limpa”, contrastando-os com o ex-presidente Lula, a quem a nota descreve como “condenado duas vezes em segunda instância e preso pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro”.

A estratégia de colocar Fernanda Bolsonaro em evidência na campanha visa reduzir a resistência junto ao eleitorado feminino, que tem demonstrado alta rejeição ao candidato do PL. A atuação, que já estava nos planos da equipe, ganhou urgência após a briga pública com Michelle. Na convenção do PL, a esposa ganhou destaque no palco e foi elogiada pelo marido, que a chamou de “minha coluna vertebral”.

Segundo o Ministério Público, Fernanda também participou do esquema de “rachadinhas” do marido em seu antigo gabinete na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). As investigações apontaram que ela esteve envolvida em todas as transações imobiliárias do casal a partir de 2010. O MP-RJ indicou que o senador teria lavado R$ 638 mil do esquema por meio da compra e venda de apartamentos no Rio de Janeiro, com a dentista como coproprietária. A Procuradoria destacou o uso da conta bancária de Fernanda em algumas dessas negociações.

Em 2011, além do depósito de Queiroz, um novo aporte de R$ 20 mil em espécie caiu na conta de Fernanda. A quebra de sigilo bancário revelou que o dinheiro tinha origem em Miguel Grillo, chefe de gabinete de Flávio na Alerj. As operações de saque e depósito foram realizadas em agências próximas, em um curto intervalo de tempo, o que levou o MP a concluir que os envolvidos tentavam driblar o rastreamento da origem dos valores através de depósitos fracionados de até R$ 5.000, que não exigiam identificação do depositante.

Em 2014, na aquisição de um apartamento na Barra da Tijuca, a conta de Fernanda recebeu R$ 20 mil em depósitos fracionados antes do pagamento da primeira parcela de R$ 50 mil do imóvel. O MP-RJ também apontou que a conta bancária de Fernanda foi utilizada para a transferência de R$ 350 mil para a compra da loja de chocolates administrada por Flávio a partir de 2015, além da integralização de R$ 200 mil para compor o capital social da empresa.

“Apesar de não figurar nos contratos, a esposa de Flávio Bolsonaro arcou não apenas com as dívidas do marido, como também integralizou a parte do sócio Alexandre Santini no capital da sociedade, sendo ela a única pessoa a aportar recursos próprios para formar o capital de giro da empresa, sem que haja uma justificativa aparente e sem qualquer registro dessas doações nas declarações de renda dos envolvidos”, afirmou o MP-RJ. Embora a transação da loja de chocolates não tenha sido tema da denúncia arquivada, ela foi exposta no pedido de busca e apreensão realizado em dezembro de 2019.

Assim como Fernanda, Michelle Bolsonaro também foi citada no caso das “rachadinhas”. Apesar de não ter sido denunciada, a quebra de sigilo bancário de Queiroz e de sua mulher revelou o depósito de R$ 89 mil em cheques na conta da ex-primeira-dama. Jair Bolsonaro (PL) afirmou que o pagamento se referia à quitação de um empréstimo. A reportagem enviou questionamentos sobre cada uma das acusações do MP-RJ, mas a assessoria da campanha não forneceu explicações sobre as transações envolvendo as contas de Fernanda.