Política

Crise com EUA partiu de Trump, algo inédito em dois séculos, avalia Gaspari

Uma análise da relação diplomática entre Brasil e Estados Unidos nos últimos dois séculos aponta para um fato inédito: a crise recente entre os dois países foi deflagrada pela Casa Branca, e não por Brasília. A avaliação é do colunista Elio Gaspari, que destaca como Donald Trump, seu secretário de Estado Marco Rubio e a família Bolsonaro transformaram a política externa em um palanque eleitoral, deteriorando uma relação bilateral que historicamente sobreviveu a tensões muito mais graves.

Gaspari resgata momentos críticos para demonstrar a excepcionalidade do período recente. Durante o Império, por exemplo, diplomatas norte-americanos chegaram a ser repreendidos por Washington por suas posturas. Já nos anos 1970, em plena ditadura militar, o governo de Ernesto Geisel enfrentou sanções impostas por Jimmy Carter devido a violações de direitos humanos e ao acordo nuclear com a Alemanha. Quando os EUA taxaram produtos brasileiros, Geisel reagiu com altivez, recusando um convite para visitar o país, preservando um canal de diálogo mínimo apesar da gravidade da situação.

O contraste mais contundente, no entanto, vem de um episódio sigiloso de março de 1964. Em meio à conspiração que levaria ao golpe, o governo de Lyndon Johnson chegou a mobilizar uma frota naval com quatro petroleiros e 553 mil barris de combustível para apoiar os golpistas, temendo uma greve de refinarias. A operação, de altíssima gravidade e uma clara interferência na soberania nacional, foi desmobilizada antes de chegar à costa brasileira e mantida em segredo.

O ponto central da análise é que, mesmo em momentos de extrema tensão e intervenções veladas, os canais diplomáticos e o respeito formal entre os chefes de Estado eram mantidos. A diferença, segundo Gaspari, é que a hostilidade partiu do topo do governo americano com Trump, encontrou eco na oposição brasileira e, pela primeira vez, destruiu publicamente as pontes de diálogo que sempre foram preservadas.