Política

A pátria de chuteiras e o avanço do capital

A Copa do Mundo de 2026, palco da paixão que historicamente une o Brasil, evidencia também as profundas contradições entre a cultura popular e a crescente mercantilização do esporte. Enquanto a seleção brasileira se prepara para enfrentar a Noruega, o debate sobre o papel do capital financeiro no futebol ganha contornos urgentes, colocando em perspectiva as recentes políticas públicas de regulação do setor.

Com recorde de arrecadação da FIFA, que ultrapassa 2,8 bilhões de dólares em patrocínios de gigantes como Coca-Cola e Aramco, o torneio se transformou em uma vitrine para a indústria de apostas esportivas. Diante da onipresença das chamadas “bets”, o governo federal avança na tentativa de regulamentar a publicidade do setor durante as transmissões, uma medida que busca proteger o consumidor e frear a exploração comercial desenfreada de uma paixão nacional.

O espetáculo, no entanto, reflete as contradições de um país ainda marcado pela desigualdade. Os ingressos para a partida, que variam de 300 a 2.000 dólares, tornam os estádios espaços cada vez mais elitizados, distantes da realidade da maioria da população. A lógica do “pão e circo”, como aponta a análise de Guy Debord sobre a sociedade do espetáculo, se materializa em arenas onde o torcedor é, antes de tudo, um consumidor.

Ainda assim, a “pátria em chuteiras” de Nelson Rodrigues resiste. Resiste na memória de lutas políticas, como a do técnico João Saldanha, afastado pela ditadura militar às vésperas da Copa de 70. E resiste, hoje, na genialidade de um drible de Vini Jr. ou na juventude de Endrick, que por um instante resgatam o futebol de sua condição de mercadoria. É nessa ginga, herança da capoeira e do samba, que a identidade brasileira se reafirma, mostrando que, apesar da força do capital, a alma do jogo ainda pertence ao povo.