Datafolha: Grande maioria rejeita qualquer ação americana no Brasil
Uma nova pesquisa Datafolha revela um cenário complexo na percepção dos brasileiros sobre o combate ao crime organizado. Embora 59% da população concorde com a decisão do governo dos Estados Unidos de classificar PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas, um expressivo contingente de 74% rejeita qualquer possibilidade de atuação militar norte-americana em território nacional sem a devida autorização do governo brasileiro.
Os dados indicam que, mais do que um alinhamento com a política externa de Washington, a concordância com a classificação reflete um profundo sentimento de insegurança. Para 16% dos entrevistados, a criminalidade é o maior problema do país. Segundo o sociólogo Renato Sérgio de Lima, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o apoio à medida é um “grito de socorro” da população, que se sente refém da violência e anseia por respostas.
A pesquisa, no entanto, expõe uma forte polarização política na interpretação das intenções americanas. Enquanto 50% acreditam que os EUA querem “ajudar a população brasileira”, 47% veem a ação como uma “desculpa para mandar no Brasil”. A desconfiança de ingerência externa é majoritária entre eleitores do PT (69%) e de Lula (63%).
Especialistas apontam que a discussão sobre classificar as facções como terroristas pode desviar o foco de estratégias mais eficazes. Leandro Piquet, da USP, ressalta que a legislação brasileira contra o crime organizado, especialmente após a Lei Antifacção, já é mais robusta e dispõe de mais instrumentos de investigação e punição do que a legislação antiterrorismo. Para Lima, focar apenas no endurecimento de penas deixa em segundo plano o combate à lavagem de dinheiro, que é o que sustenta economicamente essas organizações.
O levantamento também mostra que o governo federal enfrenta o desafio de comunicar suas políticas de segurança. Diante do avanço de uma narrativa punitivista, a cientista política Maria Hermínia Tavares observa que o campo progressista tem se movimentado para dar mais atenção ao tema e apresentar uma “outra política possível”, reforçando a capacidade do Brasil de lidar com seus próprios problemas de forma soberana e eficaz.






